Eu me apaixonei. Mesmo tendo prometido para mim mesmo que isso nunca mais aconteceria. Ele veio atrás de mim, ele traiu a até então namorada. Abril veio com suas promessas de inverno e quando eu vi eu havia me apaixonado. Ele era tudo de que eu precisava e o tempo que eu passava com ele era incrível. Eu aguentei os defeitos insuportáveis dele por oito meses - a arrogância dele, a forma nojenta como ele gosta de falar mal de todas as pessoas que o cercam, a mania de grandeza, a certeza de que ele é bom demais em tudo que faz, a forma como ele acha que é uma qualidade ser arrogante e adora quando alguém diz que ele é "metido". Não são coisas fáceis, mas eu tentei lidar com elas. Aguentei esses oito meses e o amei com tanta força que até doía.
Fomos acostumados a acreditar que quando fazemos algo com tanto amor, ganhamos mais amor em troca. Mas o que eu ganhei em troca foi ele ter me traído. Numa madrugada, sem nem pensar em como eu me sentiria, se iria me machucar ou não, ele conheceu um garoto na internet e traiu toda a confiança que eu tinha nele, e foi assim que aquele "relacionamento" acabou.
Ele sofreu. Passou mal no primeiro dia. Chorou pra mim no telefone durante algumas semanas, dizendo que se arrependia e que me queria de volta. E eu estive lá, todo esse tempo, ajudando ele, tentando consolá-lo. Íamos juntos ao shopping, comíamos juntos, fazíamos compras juntos, ríamos juntos. Ele desabafava e eu tentava fazer com que ele ficasse bem. Foi assim até ele me superar e começar a achar que podia me machucar. Começou a esfregar o namoradinho novo na minha cara, aprensentá-lo para meus amigos e - pior - para a minha mãe.
Hoje, depois de tudo que ele fez e depois de tudo que eu fiz por ele, ele acha que tem o direito de me tratar mal. Hoje eu sou um passado, sou um "oi" seco que ele dá por obrigação quando me vê na escola, sou uma versão distorcida que ele gosta de contar para todo mundo pra proteger o ego e o orgulho narcisista dele. Hoje ele acha que tem razão para me criticar, para me esnobar, mas é assim e sempre foi: ele acha que sempre está certo, que o mundo inteiro está errado. Mesmo quando ele age como um escroto ridículo, mesmo quando ele se esquece de como eu ligava para ele todos os dias, mais de uma vez ao dia, depois que a gente terminou e eu resolvi perdoá-lo por ter me traído. Mesmo assim, ele acha que está certo, que tem o direito de agir como um completo babaca, como se eu o tivesse magoado e não o contrário.
Sei que esta postagem é, no mínimo, desnecessária e não tem nada a ver com o tipo de texto que eu posto aqui. Eu poderia citar mil situações aqui e expô-lo ao ridículo, como ele vem fazendo comigo, mas eu acho que eu não preciso provar nada para ninguém. Mas esta postagem é, na verdade, um desabafo, um exorcismo. Gostaria de dizer todas essas coisas olhando nos olhos arrogantes dele e depois arrebentar aquele nariz horrível, mas não vale a pena. Nunca valeu, nada do que eu fiz durante todos esses meses valeu a pena.
Compartilho este texto com todos vocês que já se apaixonaram por um completo babaca e que queriam profundamente ser submetidos(as) à uma lobotomia para não se odiar todos os dias por ter perdido seu tempo com alguém que não vale nem mesmo um segundo da sua vida.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Horror Sanctuary
- 08:02 AM na escola, para uma prova de reclassificação.
Claro que eu não consigo me focar, estudar, me concentrar. Claro. Este é o pior lugar do mundo para mim hoje. Eu preferia estar no Iraque a estar aqui.
Aqui é onde tudo aconteceu, cada uma das coisas dolorosas. Este é um santuário de horrores. É um lugar doentio. Eu quero vomitar todas as vezes que eu penso neste lugar. Estar aqui? É como o inferno, ou talvez pior. Eu queria nunca - nunca! - ter que voltar aqui. Eu queria poder esquecer este lugar. Queria poder apagá-lo do meu cérebro para nunca mais sentir essa bagunça no meu estômago de novo.
O que aconteceria se meu coração explodisse agora que estou aqui? Porque parece que vai explodir a qualquer momento. Todos os meus órgãos estão brigando entre si para sair do meu corpo e fugir daqui. Minhas costas doem. Minha visão é apenas um borrão. Parece que tudo ao meu redor está rodando, rodando, rodando, até que eu fique enjoado.
Este lugar pegou fogo uma vez. Foi quando tudo começou - no incêndio. Cinzas e fumaça fizeram essas paredes se tornarem escuras, cinzas, secas e tóxicas. Exatamente como minha vida parece estar agora. Exatamente como o incêndio - ou a escola depois dele. Eu não consigo explicar o quanto eu odeio este lugar!
É onde eles se beijam todas as manhãs, é onde eles se encontraram pela primeira vez. Não há fogo suficiente para queimar tudo isso. Não há fumaça suficiente para matar tudo isso. Não há lugar mais seguro do que qualquer outro longe desta escola.
Algum dia eu irei ler este pedaço de papel, esta caligrafia desajeitada, e irei pensar em como as coisas mudam. Porque eu sei que elas irão mudar! Sei que há um dia lindo nascendo algum dia desses e essa escola, essas paredes, essa mesa, esse estacionamento, o incêndio, o beijo, o ódio, irão desaparecer. Serão apenas uma cicatriz, apenas mais uma cicatriz nas minhas memórias mais profundas. Tenho certeza de que isso irá acontecer. E eu não vou me importar se este lugar existe ou não, será indiferente para mim.
Mas até isso acontecer, eu odeio este lugar. Com todas as células do meu corpo.
Claro que eu não consigo me focar, estudar, me concentrar. Claro. Este é o pior lugar do mundo para mim hoje. Eu preferia estar no Iraque a estar aqui.
Aqui é onde tudo aconteceu, cada uma das coisas dolorosas. Este é um santuário de horrores. É um lugar doentio. Eu quero vomitar todas as vezes que eu penso neste lugar. Estar aqui? É como o inferno, ou talvez pior. Eu queria nunca - nunca! - ter que voltar aqui. Eu queria poder esquecer este lugar. Queria poder apagá-lo do meu cérebro para nunca mais sentir essa bagunça no meu estômago de novo.
O que aconteceria se meu coração explodisse agora que estou aqui? Porque parece que vai explodir a qualquer momento. Todos os meus órgãos estão brigando entre si para sair do meu corpo e fugir daqui. Minhas costas doem. Minha visão é apenas um borrão. Parece que tudo ao meu redor está rodando, rodando, rodando, até que eu fique enjoado.
Este lugar pegou fogo uma vez. Foi quando tudo começou - no incêndio. Cinzas e fumaça fizeram essas paredes se tornarem escuras, cinzas, secas e tóxicas. Exatamente como minha vida parece estar agora. Exatamente como o incêndio - ou a escola depois dele. Eu não consigo explicar o quanto eu odeio este lugar!É onde eles se beijam todas as manhãs, é onde eles se encontraram pela primeira vez. Não há fogo suficiente para queimar tudo isso. Não há fumaça suficiente para matar tudo isso. Não há lugar mais seguro do que qualquer outro longe desta escola.
Algum dia eu irei ler este pedaço de papel, esta caligrafia desajeitada, e irei pensar em como as coisas mudam. Porque eu sei que elas irão mudar! Sei que há um dia lindo nascendo algum dia desses e essa escola, essas paredes, essa mesa, esse estacionamento, o incêndio, o beijo, o ódio, irão desaparecer. Serão apenas uma cicatriz, apenas mais uma cicatriz nas minhas memórias mais profundas. Tenho certeza de que isso irá acontecer. E eu não vou me importar se este lugar existe ou não, será indiferente para mim.
Mas até isso acontecer, eu odeio este lugar. Com todas as células do meu corpo.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Perseguindo Linhas
Linhas. Estamos cercados delas. Algumas foram feitas para serem ultrapassadas. Outras significam "perigo, não ultrapasse!". Onde quer que você vá, haverá placas e linhas te indicando algo que você não pode fazer.
Quanto mais determinada for uma linha, quanto mais proibição ela expressa, mais queremos saber o que existe do outro lado. Por que ela está aqui? Por que é proibido ultrapassá-la? Sem pensar duas vezes, quebramos uma barreira imaginária e estamos sujeitos aos riscos do outro lado da linha.
Algumas linhas não têm o menor sentido de existir. Nos disseram que era proibido, e nós acreditamos. Algumas delas, fomos nós mesmos que traçamos, por proteção, por sobrevivência, ou simplesmente pelo prazer de cruzá-las. Outras têm um motivo importante de estar ali e cruzá-las pode ser realmente perigoso.
Quando você ultrapassa uma linha, você o faz por sua conta e risco. O que está do outro lado pode ser prejudicial à sua saúde física ou mental. Pode ser algo irreversível. Às vezes pode ser mortal. Mas como resistir ao impulso de querer saber o que pode acontecer? Somos seres de sangue quente. Gostamos do desafio, gostamos da adrenalina de fazer algo proibido. E de fato o fazemos. Respiramos fundo e nos arriscamos.
Cruzar uma linha significa invadir uma propriedade privada, de vez em quando. Interferir em algo que não é seu. Invadir um território que já foi conquistado por alguém. E isso não é seguro e nem ético.
O bom das linhas é que elas não são paredes. Em alguns casos, quando as feridas são superficiais, você ainda tem a chance de correr, cruzá-las de volta ao lado seguro e permitido. Afastar-se. Seguir seu caminho até que outra linha tentadora apareça. E decidir se vale a pena cruzá-la ou não.
Quanto mais determinada for uma linha, quanto mais proibição ela expressa, mais queremos saber o que existe do outro lado. Por que ela está aqui? Por que é proibido ultrapassá-la? Sem pensar duas vezes, quebramos uma barreira imaginária e estamos sujeitos aos riscos do outro lado da linha.
Algumas linhas não têm o menor sentido de existir. Nos disseram que era proibido, e nós acreditamos. Algumas delas, fomos nós mesmos que traçamos, por proteção, por sobrevivência, ou simplesmente pelo prazer de cruzá-las. Outras têm um motivo importante de estar ali e cruzá-las pode ser realmente perigoso.
Quando você ultrapassa uma linha, você o faz por sua conta e risco. O que está do outro lado pode ser prejudicial à sua saúde física ou mental. Pode ser algo irreversível. Às vezes pode ser mortal. Mas como resistir ao impulso de querer saber o que pode acontecer? Somos seres de sangue quente. Gostamos do desafio, gostamos da adrenalina de fazer algo proibido. E de fato o fazemos. Respiramos fundo e nos arriscamos.
Cruzar uma linha significa invadir uma propriedade privada, de vez em quando. Interferir em algo que não é seu. Invadir um território que já foi conquistado por alguém. E isso não é seguro e nem ético.
O bom das linhas é que elas não são paredes. Em alguns casos, quando as feridas são superficiais, você ainda tem a chance de correr, cruzá-las de volta ao lado seguro e permitido. Afastar-se. Seguir seu caminho até que outra linha tentadora apareça. E decidir se vale a pena cruzá-la ou não.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
O último dia da sua vida
O tempo todo morrem pessoas no mundo. É um fato. Se não fosse assim, não haveria espaço e recursos para tanta gente viva. A natureza então determina isso: precisamos morrer, mais cedo ou mais tarde.
Não sou perito em estatística, mas poderia supor quase com certeza que a maioria das pessoas que morrem, morrem inesperadamente, de uma hora para a outra. Estão em seus carros em uma viagem de férias tão esperada. Estão caminhando pelas ruas até a padaria mais próxima. Assistem a algum filme no cinema. E antes mesmo que possam evitar, sofrem acidentes de trânsito, são assaltadas ou enfartam. Em alguns minutos, todos os planos, as pendências e os sentidos se foram.
Isso sempre fez com que pensássemos a respeito: e se a minha vida acabar hoje? E se eu não tiver tempo de fazer tudo que eu quero? Viva hoje como se fosse o último dia, é o que dizem por aí. Não concordo que isso seja tão fácil na prática.
Tudo na vida exige tempo. Não somos seres instantâneos, não podemos resolver todas as nossas pendências em vinte e quatro horas. A maioria delas precisa de tempo e calma. Se todo mundo levasse esse ditado ao pé da letra, provavelmente hoje realmente seria o último dia de muita gente: a vida acontece dia após dia, e a pressa seria no mínimo fatal.
Mas a verdade é que a ideia de partir e deixar algumas coisas pendentes nos assusta. Um "me desculpa" que você não disse. Uma declaração de amor que você adiou. Uma visita que você não faz à sua avó há algum tempo. Uma carta que você ainda não mandou. Um beijo que você nunca pediu. Uma ligação que você não fez. Um emprego que você não mandou para o inferno. Um DVD que você ainda não devolveu à locadora. E se eu morrer hoje e deixar todas essas pendências? Será que eu vou conseguir descansar em paz?
Precisamos de espaço para deixar as coisas acontecerem. Claro, não faço uma apologia à inércia. Mas a maioria das coisas precisa de tempo e espaço para se desenrolar. Se apressarmos a vida com medo de morrer, se acelerarmos veículos com medo de não dar tempo de chegar, se nos jogarmos de cabeça em tudo porque hoje pode ser o último dia e não dá tempo de pensar bem antes de pular, acabamos anulando os nossos dias e no intuito de resolver pendências, criamos mais e mais. Acabamos não vivendo em paz, com medo de não conseguir descansar.
Ninguém sabe quando vai morrer. Se soubéssemos, seria fácil. Deixaríamos tudo para a última hora. Resolveríamos tudo no último dia. E não aproveitaríamos ele para coisas que realmente valem a pena.
As pendências que deixamos não são por nossa culpa. A maioria delas tem a ver com o medo, e o medo não é algo que possamos controlar. Então aproveite seu tempo vivo. Respeite seus limites e não se cobre (tanto). Ame as pessoas ao seu redor e faça com que elas saibam disso. Divirta-se sempre que puder. Dê prioridade ao que vale a pena. Cuide da sua saúde, dos seus amigos, dos seus animais de estimação, dos seus pais, irmãos e avós.
Viva como se você fosse morrer, mas um dia. Não hoje.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Mas eu disse não
Ele tentou me beijar e eu disse não. Foi uma das coisas mais difíceis que eu tive que fazer algum dia na minha vida. Dizer não quando cada milímetro da minha pele pele gritava sim, quando minha boca adormecia à espera daquele beijo. Mas eu disse não. Ignorei todos os pedidos do meu corpo para me aproximar do seu rosto tão lindo e bem desenhado, de seus olhos tão cristalinos e profundos que eu poderia me afogar neles se eu quisesse. E foi exatamente por isso que eu disse não. Para não me afogar. Para não ter que aprender a sobreviver em um mar tão verde (será que algo no mundo consegue ser tão verde assim?) e tão profundo, tão cheio de promessas que nenhum de nós poderia jamais cumprir.
E agora, algumas horas depois disso, chego à conclusão de que alguns tipos de limites que traçamos para nós mesmos não são eficazes. São apenas linhas de giz que desenhamos no chão, para fazer questão de ultrapassar. Algumas horas depois daquele não, eu estou me afogando da mesma forma. Estou pensando em como aquele perfume é compatível com a grama seca abaixo de nós, com os vaga-lumes desenhando traços, com o alinhamento de cada planeta num Universo que existe só para ele existir.
Mas eu disse não. Pensei que fosse uma atitude inteligente, madura, fria. Não foi. Não adiantou nada. Ele continua ecoando em minha cabeça, meus lábios continuam adormecidos e não existe nenhum rosto igual ao dele no mundo.
Por trás das nossas escolhas existem o medo e a loucura. Cabe a nós decidir o que é mais seguro, e o mais seguro nem sempre é a opção mais fácil.
E agora, algumas horas depois disso, chego à conclusão de que alguns tipos de limites que traçamos para nós mesmos não são eficazes. São apenas linhas de giz que desenhamos no chão, para fazer questão de ultrapassar. Algumas horas depois daquele não, eu estou me afogando da mesma forma. Estou pensando em como aquele perfume é compatível com a grama seca abaixo de nós, com os vaga-lumes desenhando traços, com o alinhamento de cada planeta num Universo que existe só para ele existir.
Mas eu disse não. Pensei que fosse uma atitude inteligente, madura, fria. Não foi. Não adiantou nada. Ele continua ecoando em minha cabeça, meus lábios continuam adormecidos e não existe nenhum rosto igual ao dele no mundo.
Por trás das nossas escolhas existem o medo e a loucura. Cabe a nós decidir o que é mais seguro, e o mais seguro nem sempre é a opção mais fácil.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
gravidade
Existe uma força que nos prende ao chão que nunca conseguiu segurar meus pensamentos. Sempre foi assim, desde que o planeta existe e se, por algum motivo, a gravidade sumir, tudo se desprende e se choca e provavelmente a vida seria extinta em poucas horas. Estar preso ao chão é uma questão de sobrevivência.
Mas às vezes queremos mudar isso. Damos saltos maiores do que podemos alcançar, no intuito de encontrar alguma forma de alimentar nossos dias que não esteja presa na superfície terrestre. Não gostamos da textura do chão, da realidade: fria e dura. Pulamos. Do alto dos edifícios mais altos, dos desejos mais improváveis, dos impulsos mais irresistíveis. Esticamos nossos pés, abandonamos o chão. Em um segundo estamos fora dele.
E então? Quem foi que nos ensinou a voar assim? Baseado em qual lei da física? Ninguém e nenhuma. Quando tentamos alcançar as nuvens, a primeira sensação é boa. Desafiar a gravidade. Abrir asas imaginárias e libertar-se de quem somos, das coisas que deixamos cair no chão pelo caminho. Quando tiramos os pés do chão, tudo pode acontecer.
Mas, e quando o vôo começa a se transformar em queda? E isso é inevitável. Querendo ou não, em algum momento seremos puxados de volta para a superfície, para o concreto, para o que é real. Não importa o quanto estar nas nuvens seja bom, nós não fomos criados para estar nelas. Invariavelmente caímos, de frente com o solo. Não existe pára-quedas na vida, e a queda é livre. Isso dói. Quebra nossos ossos, arranha nossa pele, sobrecarrega nosso cérebro com sinais elétricos. Ficamos imóveis por vários dias, até tudo o que existia antes se recompor.
No entanto, algumas coisas são perdidas com as quedas, e não podemos substituí-las. Será uma cicatriz, uma sequela que estará sempre ali para nos lembrar dos perigos de estar fora do chão. E alguns de nós não conseguem se recuperar nunca.
Então sonhe. Não tenha medo de querer tocar o Sol. Nossos sonhos não podem ser puxados pela gravidade. Mas não se esqueça de tirar seus sapatos, sentir o chão grudado em seus pés e agradecê-lo por estar ali.
Mas às vezes queremos mudar isso. Damos saltos maiores do que podemos alcançar, no intuito de encontrar alguma forma de alimentar nossos dias que não esteja presa na superfície terrestre. Não gostamos da textura do chão, da realidade: fria e dura. Pulamos. Do alto dos edifícios mais altos, dos desejos mais improváveis, dos impulsos mais irresistíveis. Esticamos nossos pés, abandonamos o chão. Em um segundo estamos fora dele.
E então? Quem foi que nos ensinou a voar assim? Baseado em qual lei da física? Ninguém e nenhuma. Quando tentamos alcançar as nuvens, a primeira sensação é boa. Desafiar a gravidade. Abrir asas imaginárias e libertar-se de quem somos, das coisas que deixamos cair no chão pelo caminho. Quando tiramos os pés do chão, tudo pode acontecer.Mas, e quando o vôo começa a se transformar em queda? E isso é inevitável. Querendo ou não, em algum momento seremos puxados de volta para a superfície, para o concreto, para o que é real. Não importa o quanto estar nas nuvens seja bom, nós não fomos criados para estar nelas. Invariavelmente caímos, de frente com o solo. Não existe pára-quedas na vida, e a queda é livre. Isso dói. Quebra nossos ossos, arranha nossa pele, sobrecarrega nosso cérebro com sinais elétricos. Ficamos imóveis por vários dias, até tudo o que existia antes se recompor.
No entanto, algumas coisas são perdidas com as quedas, e não podemos substituí-las. Será uma cicatriz, uma sequela que estará sempre ali para nos lembrar dos perigos de estar fora do chão. E alguns de nós não conseguem se recuperar nunca.
Então sonhe. Não tenha medo de querer tocar o Sol. Nossos sonhos não podem ser puxados pela gravidade. Mas não se esqueça de tirar seus sapatos, sentir o chão grudado em seus pés e agradecê-lo por estar ali.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Abelha
Fevereiro sempre chega pra mim trazendo um pouquinho de esperança, assim como uma abelha que sempre tem um pouquinho de pólen amarelo-vivo preso em suas perninhas. Depois da transição dos primeiros dias do ano, a nostalgia deixa meus dedos e eu posso começar de novo. É sempre assim. Sempre em fevereiro. Sempre no carnaval.
E já faz alguns carnavais que eu tenho aprendido a deixar a banda tocar. Não adianta fugir de certas verdades ou fingir que existe mais algo a ser dito depois de ter ouvido tanta, tanta coisa ruim. Comecei o ano me livrando de algumas coisas que não me faziam mais bem e de outras que nunca mais seriam as mesmas. Não prestar primeiros-socorros a feridos é omissão de socorro. Mas uma vez que o coração para de bater, não adianta tentar reanimá-lo por muito tempo: algumas coisas não têm conserto, não têm volta, não foram feitas para durar para sempre.
Depois de se encontrar e encontrar aquilo que falta em você mesmo, depois de levantar do tombo causado pelo espanto, depois de resistir à maçã mais venenosa do paraíso e de aprender a deixar as coisas irem embora, vem o sol e também as asas. A tempestade passou, afinal. Vem fevereiro, a esperança. Vem o carnaval, o amarelo e as outras cores e os recomeços - todos nós precisamos de recomeços.
Nenhuma abelha fica pra sempre no mesmo campo. É hora de voar e levar sol amarelo-pólen para outras flores. Não faz sentido insistir em procurar vida em um jardim que deixou de ter vida há muito tempo.
E já faz alguns carnavais que eu tenho aprendido a deixar a banda tocar. Não adianta fugir de certas verdades ou fingir que existe mais algo a ser dito depois de ter ouvido tanta, tanta coisa ruim. Comecei o ano me livrando de algumas coisas que não me faziam mais bem e de outras que nunca mais seriam as mesmas. Não prestar primeiros-socorros a feridos é omissão de socorro. Mas uma vez que o coração para de bater, não adianta tentar reanimá-lo por muito tempo: algumas coisas não têm conserto, não têm volta, não foram feitas para durar para sempre.
Depois de se encontrar e encontrar aquilo que falta em você mesmo, depois de levantar do tombo causado pelo espanto, depois de resistir à maçã mais venenosa do paraíso e de aprender a deixar as coisas irem embora, vem o sol e também as asas. A tempestade passou, afinal. Vem fevereiro, a esperança. Vem o carnaval, o amarelo e as outras cores e os recomeços - todos nós precisamos de recomeços.Nenhuma abelha fica pra sempre no mesmo campo. É hora de voar e levar sol amarelo-pólen para outras flores. Não faz sentido insistir em procurar vida em um jardim que deixou de ter vida há muito tempo.
"Esqueça o que dissemos
Antes que fiquemos velhos demais.
Mostre-me um jardim que esteja explodindo em vida."
(Snow Patrol - Chasing Cars)
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Let it go
Partes que não são mais nossas vão embora pelo ralo todos os dias. Nossas células morrem e dão lugar a novas. Nossos dentes caem quando somos crianças para que possam nascer outros maiores e mais fortes.
Coisas que um dia fizeram parte de nós deixam de ser nossas o tempo todo, no decorrer de toda uma vida e outras aparecem para preencher espaços que foram criados involuntariamente.
Não adianta querer lutar contra isso. Além de inútil, seria lutar contra a lei da própria natureza: partes nossas têm de ir embora para dar lugar a uma nova versão de nós mesmos, só que mais fortes, mais resistentes, mais aptos a encarar dias diferentes, invernos mais frios, noites mais escuras. Crescemos e no decorrer deste processo abandonamos pedaços de nós mesmos.
É triste, a princípio, o pensamento de ter coisas arrancadas sem a nossa permissão. Elas nos foram dadas e à partir de então começamos a nos acostumar com a ideia de que elas são nossas e de que são instransferíveis e insubstituíveis. fazemos planos com elas e contamos com a sua eternidade sem nos darmos conta de que amanhã elas possam ser apenas doces lembranças.
Mas então descobrimos que existem coisas tão únicas quanto as outras. Nada é igual a nada. Ninguém é igual a ninguém. Um passeio de mãos dadas terá sempre um cheiro diferente dos outros. Beijos têm sabores diferentes e toques são tão singulares quanto nossas impressões digitais. No entanto, sempre existirão pessoas novas e únicas, caminhos inexplorados, beijos com novas texturas e toques com temperaturas diferentes.Aquilo que perdemos fica marcado em nossas mentes para sempre, assim como tudo aquilo que ganhamos será sempre nosso, por mais que um dia tenha de ir embora. Tomar um banho de chuva para renovar a pele faz bem e a única maneira de não se machucar quando algumas partes de nós precisam ir embora é aceitar que novas composições estão chegando e, enfim, deixá-las ir.
"As brigas que ganhei, nenhum troféu como lembrança pra casa eu levei.
As brigas que perdi, estas sim, eu nunca esqueci, eu nunca esqueci."
(Pato Fu - Perdendo Dentes)
sábado, 14 de janeiro de 2012
O caminho mais fácil nem sempre é melhor que o da dor
Morda a maçã mais vermelha e proibida daquela árvore e todo o seu paraíso ruirá. Aproxime-se mais do fogo e queime suas memórias preciosas. Dê um beijo nos lábios mais saborosos e você saberá o que é a dor.
Perdura a verdade de que noites de inverno são tão frias quanto mãos que se separam e que as folhas do outono caem de seus galhos fortes e secam na terra, sem outro destino para optarem: sozinhas.
Tentamos ser destemidos numa escuridão na qual nos obrigaram a ficar, de castigo. Imaginamos que exista alguma porta para qual correr e encontrar a luz do sol. Nos dedicamos ao pensamento de segurança. E então descobrimos que a escuridão é um lugar seguro. Ninguém pode ver suas fraquezas quando não há luz.
Existe veneno nas coisas mais simples, e elas são as que mais nos atraem.
Perdura a verdade de que noites de inverno são tão frias quanto mãos que se separam e que as folhas do outono caem de seus galhos fortes e secam na terra, sem outro destino para optarem: sozinhas.
Tentamos ser destemidos numa escuridão na qual nos obrigaram a ficar, de castigo. Imaginamos que exista alguma porta para qual correr e encontrar a luz do sol. Nos dedicamos ao pensamento de segurança. E então descobrimos que a escuridão é um lugar seguro. Ninguém pode ver suas fraquezas quando não há luz.
Existe veneno nas coisas mais simples, e elas são as que mais nos atraem.
sábado, 7 de janeiro de 2012
The Same Old Fears
Trombei mais uma vez naquilo que eu gosto de chamar de espanto. E tudo caiu, como um muro fraco.
Construí barreiras ao meu redor e acreditei que elas fossem me livrar de todo o mal, amém. Mas não é assim, não quando o mal vem de cima, e todo mundo tem teto de vidro.
Chuvas de verão efêmeras que não dizem a que vêm, e um ano que já começou acabando. E eu comecei cansado, cansado desse amor que circula na boca das pessoas, só na boca mesmo, que nunca chega nem perto de coração nenhum, que sequer entra em contato com artéria ou sangue pra se transformar em oxigênio ou algo assim.
Quando é que não vão ser só metades e eu não vou precisar me afogar em um mar de poréns, entretantos, pelo menos e, principalmente, por quês?
As piores coisas aparecem de repente. Vêm sem que você esteja preparado para elas. Deixam sequelas em seus lábios. Queimam pedaços do seu pulmão. Não por tristeza, não é tristeza que me faz escrever isso, não é nem de longe tristeza - eu conquistei uma liberdade que havia me esquecido que tinha. Falo isso em nome da raiva. Da raiva por ter acreditado. Da raiva por ter me doado tanto, me desrespeitado tanto, adoecido e me curado sem a ajuda de nenhuma alma viva ou morta que alguma vez tenha estendido uma mão suja para me ensinar qual era o caminho menos apedrejado. E no final eu escolhi o caminho errado, fui correndo com força e crença, doei todos os meus minutos para alguém que os despedaçou como folhas secas do outono onde tudo isso começou. E no final, corri de olhos fechados, acreditando em vozes que não existem, acreditando em amores inventados, e eu corri, corri, corri e trombei mais uma vez naquilo que eu gosto de chamar de espanto.
Cansei da hipocrisia dos dias que fingem que passam mas que deixam um rastro de coisas todas iguais às de sempre.
Construí barreiras ao meu redor e acreditei que elas fossem me livrar de todo o mal, amém. Mas não é assim, não quando o mal vem de cima, e todo mundo tem teto de vidro.
Chuvas de verão efêmeras que não dizem a que vêm, e um ano que já começou acabando. E eu comecei cansado, cansado desse amor que circula na boca das pessoas, só na boca mesmo, que nunca chega nem perto de coração nenhum, que sequer entra em contato com artéria ou sangue pra se transformar em oxigênio ou algo assim.Quando é que não vão ser só metades e eu não vou precisar me afogar em um mar de poréns, entretantos, pelo menos e, principalmente, por quês?
As piores coisas aparecem de repente. Vêm sem que você esteja preparado para elas. Deixam sequelas em seus lábios. Queimam pedaços do seu pulmão. Não por tristeza, não é tristeza que me faz escrever isso, não é nem de longe tristeza - eu conquistei uma liberdade que havia me esquecido que tinha. Falo isso em nome da raiva. Da raiva por ter acreditado. Da raiva por ter me doado tanto, me desrespeitado tanto, adoecido e me curado sem a ajuda de nenhuma alma viva ou morta que alguma vez tenha estendido uma mão suja para me ensinar qual era o caminho menos apedrejado. E no final eu escolhi o caminho errado, fui correndo com força e crença, doei todos os meus minutos para alguém que os despedaçou como folhas secas do outono onde tudo isso começou. E no final, corri de olhos fechados, acreditando em vozes que não existem, acreditando em amores inventados, e eu corri, corri, corri e trombei mais uma vez naquilo que eu gosto de chamar de espanto.
Cansei da hipocrisia dos dias que fingem que passam mas que deixam um rastro de coisas todas iguais às de sempre.
"Nós somos apenas duas almas perdidas
Nadando em um aquário, ano após ano.
Correndo pelo mesmo velho chão,
o que encontramos?
Os mesmos velhos medos."
(Pink Floyd - Wish You Were Here)
sábado, 31 de dezembro de 2011
Achados e Perdidos - Feliz 2012
Todo mundo espera que o próximo ano seja melhor. Que haja mais felicidades, mais união entre as pessoas, mais paz, mais dinheiro e prosperidade. É assim desde sempre. Então o ano inicia e as pessoas continuam infelizes. Por que isso acontece?
Se eu pudesse chutar, diria que tem a ver com o fato de que estamos todos perdidos. Perdidos de nossos sonhos e ideais, perdidos de nossos caminhos, perdidos de nós mesmos. Subestimamos nossas capacidades e dons e supervalorizamos o poder de pessoas que se dizem superiores a nós. Abaixamos a cabeça para injustiças no trabalho e nos prendemos a empregos que não têm nada a ver com a gente. Ficamos amarrados a relacionamentos que nunca vão dar certo e a gente finge não enxergar isso, porque vai doer. Recusamos convites para festas porque achamos que estamos mal vestidos ou que não temos mais tanto pique. Deixamos nossos projetos para amanhã, damos prioridades para coisas e pessoas que não são tão importantes assim, gastamos mais do que nossos bolsos comportam pelo simples motivo de ter. Mudamos nossas ideias e gostos de acordo com o que está estampado na revista semanal. E o resultado disso tudo é que nos machucamos, o tempo todo - porque estamos todos a procura de nós mesmos, mas em lugares errados, em pessoas erradas, em caminhos errados.
Por isso, além da saúde, das felicidades, da paz, do amor e do dinheiro, eu desejo que em 2012 você se encontre. Encontre o que falta em você, os pedaços que você deixou pelo caminho. Encontre seus sonhos e lute por eles, com todas as suas forças. Encontre coragem para mudar tudo aquilo que não te agrada, tudo aquilo que não te deixa dormir de noite, tudo aquilo que te mantém preso no tempo e no espaço. Encontre suas antigas promessas e as cumpra! Descubra quais são seus dons, seus talentos, suas capacidades. E, mais do que tudo, encontre você mesmo - tudo aquilo que compõe quem você é, o que você quer, o que você sonha e de onde você vem. Encontre-se!
O mundo é uma grande caixa de achados e perdidos. Existem partes de nós por todos os cantos, e em várias outras pessoas. A gente só precisa se procurar nos lugares certos.
Se eu pudesse chutar, diria que tem a ver com o fato de que estamos todos perdidos. Perdidos de nossos sonhos e ideais, perdidos de nossos caminhos, perdidos de nós mesmos. Subestimamos nossas capacidades e dons e supervalorizamos o poder de pessoas que se dizem superiores a nós. Abaixamos a cabeça para injustiças no trabalho e nos prendemos a empregos que não têm nada a ver com a gente. Ficamos amarrados a relacionamentos que nunca vão dar certo e a gente finge não enxergar isso, porque vai doer. Recusamos convites para festas porque achamos que estamos mal vestidos ou que não temos mais tanto pique. Deixamos nossos projetos para amanhã, damos prioridades para coisas e pessoas que não são tão importantes assim, gastamos mais do que nossos bolsos comportam pelo simples motivo de ter. Mudamos nossas ideias e gostos de acordo com o que está estampado na revista semanal. E o resultado disso tudo é que nos machucamos, o tempo todo - porque estamos todos a procura de nós mesmos, mas em lugares errados, em pessoas erradas, em caminhos errados.Por isso, além da saúde, das felicidades, da paz, do amor e do dinheiro, eu desejo que em 2012 você se encontre. Encontre o que falta em você, os pedaços que você deixou pelo caminho. Encontre seus sonhos e lute por eles, com todas as suas forças. Encontre coragem para mudar tudo aquilo que não te agrada, tudo aquilo que não te deixa dormir de noite, tudo aquilo que te mantém preso no tempo e no espaço. Encontre suas antigas promessas e as cumpra! Descubra quais são seus dons, seus talentos, suas capacidades. E, mais do que tudo, encontre você mesmo - tudo aquilo que compõe quem você é, o que você quer, o que você sonha e de onde você vem. Encontre-se!
O mundo é uma grande caixa de achados e perdidos. Existem partes de nós por todos os cantos, e em várias outras pessoas. A gente só precisa se procurar nos lugares certos.
sábado, 24 de dezembro de 2011
Meia-noite
Eu me lembro quando descobri que Papai Noel não existia. Devia ter por volta de 10 anos de idade. Sempre desconfiei de que fosse apenas uma história e que na verdade eram meus pais que colocavam os presentes debaixo da árvore, então vivia questionando, até que eles acabaram confessando a farsa.
É claro que o Natal nunca mais foi o mesmo. Não havia mais a alegria de acordar no meio da madrugada e descobrir que Papai Noel me visitara. Deixou de existir aquele mistério todo - como é que ele entra aqui se a gente não tem chaminé? Será que dá pra ver ele voando no céu se eu ficar aqui olhando?
Dez anos se passaram. Sou ateu e por isso não vejo o Natal como mais do que uma festa extrema e descaradamente comercial e capitalista. Todo mundo enlouquece no Natal, fica meio esquizofrênico e faz coisas que não costuma fazer durante o resto do ano - solidariedade, união, amor ao próximo só aparecem em dezembro, e olhe lá.
Mas não é disso que eu quero falar. Que as pessoas são hipócritas, não é uma novidade, e isso não se manifesta só no Natal - convivemos com a hipocrisia o tempo todo. Eu quero falar é da magia, do quanto o Natal me fez acreditar que coisas mágicas podem acontecer de vez em quando. Seja com um presente que aparece misteriosamente debaixo da árvore, seja com a cidade que de repente ganha cores e luzes vibrantes. Coisas mágicas acontecem quando é Natal... a minha infância me fez acreditar nisso, e parece que é um pensamento que não irá embora nunca.
Apesar de não acreditar no motivo real da data, o Natal pra mim significa isso: que vale a pena esperar. Que as coisas acontecem quando a gente acredita nelas e que, de vez em quando, questionar tudo faz com que toda a graça, todos os sonhos e toda a magia se percam. Não importa se Papai Noel existe ou não, escreva uma cartinha com um desejo muito grande e acredite nela, que, se você fizer por merecer, esse pedido se tornará realidade. Essa é a verdadeira magia, esse é o verdadeiro espírito natalino, pelo menos para mim. E as magias, sejam reais ou não, na maior parte das vezes só acontecem quando a gente acredita nelas.
É claro que o Natal nunca mais foi o mesmo. Não havia mais a alegria de acordar no meio da madrugada e descobrir que Papai Noel me visitara. Deixou de existir aquele mistério todo - como é que ele entra aqui se a gente não tem chaminé? Será que dá pra ver ele voando no céu se eu ficar aqui olhando?
Dez anos se passaram. Sou ateu e por isso não vejo o Natal como mais do que uma festa extrema e descaradamente comercial e capitalista. Todo mundo enlouquece no Natal, fica meio esquizofrênico e faz coisas que não costuma fazer durante o resto do ano - solidariedade, união, amor ao próximo só aparecem em dezembro, e olhe lá.
Mas não é disso que eu quero falar. Que as pessoas são hipócritas, não é uma novidade, e isso não se manifesta só no Natal - convivemos com a hipocrisia o tempo todo. Eu quero falar é da magia, do quanto o Natal me fez acreditar que coisas mágicas podem acontecer de vez em quando. Seja com um presente que aparece misteriosamente debaixo da árvore, seja com a cidade que de repente ganha cores e luzes vibrantes. Coisas mágicas acontecem quando é Natal... a minha infância me fez acreditar nisso, e parece que é um pensamento que não irá embora nunca.
Apesar de não acreditar no motivo real da data, o Natal pra mim significa isso: que vale a pena esperar. Que as coisas acontecem quando a gente acredita nelas e que, de vez em quando, questionar tudo faz com que toda a graça, todos os sonhos e toda a magia se percam. Não importa se Papai Noel existe ou não, escreva uma cartinha com um desejo muito grande e acredite nela, que, se você fizer por merecer, esse pedido se tornará realidade. Essa é a verdadeira magia, esse é o verdadeiro espírito natalino, pelo menos para mim. E as magias, sejam reais ou não, na maior parte das vezes só acontecem quando a gente acredita nelas.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Metadesmorfoses
Tão longe de mim mesmo e dos lugares que eu amava, das chuvas de verão, da árvore recém-enfeitada, das bolas coloridas, das luzes, tão distante de quando bastava acreditar - hoje me pergunto para onde aqueles dias foram, em que momento, e por que se foram, e a resposta é sempre a mais simples: porque eu cresci.
Esse é geralmente o destino de todas as formas vivas: crescer. Aprendemos isso tão cedo quanto desenvolvemos a habilidade de entender o que as pessoas dizem. Coisa de gente grande. Coma seus vegetais para crescer forte. O que você vai ser quando crescer? É inevitável, todos nós nos tornamos adultos.
Mas quando exatamente isso acontece? E tem a ver com o quê? Idade, experiências, metros de altura... O que determina que devemos deixar a imprudência de lado e assumir a responsabilidade de adultos? O que nos força a abandonar certas escolhas e fazer outras mais sérias? Crescer significa mais do que adquirir pelos no rosto e uma carteira de habilitação. É mais do que deixar de assistir desenhos animados para analisar documentários, abandonar os livros de fantasia e colocar biografias em sua cabeceira. Crescer não é só a respeito dos ganhos.
Crescer é perda. Mas, além disso, crescer significa aceitar essas perdas, embora não concorde com elas. Essa é a linha que nos separa do que éramos quando tínhamos 12 anos de idade e do que nos tornamos: quando você começa a ter que engolir o choro e aceitar aquilo que não te agrada, significa que você cresceu. Porque é disso que o mundo adulto é feito: de coisas que não te agradam e que você tem de aceitar, de sapatos que machucam seus pés mas que são necessários em uma apresentação formal, de pessoas com as quais você não se identifica e no entanto tem que conviver todos os dias em seu ambiente de trabalho, de despesas que você não gostaria de ter, mas é obrigado a pagar se quiser ter uma vida no mínimo boa.
Por que algumas pessoas não crescem nunca é uma pergunta para Freud e a psicanálise. Mas, por que crescemos, nos machucamos, engolimos coisas maiores do que nossas gargantas, perdemos parte de nós mesmos e, ainda assim, continuamos inteiros? Bem, essa a ciência responde: ou nos adaptamos para sobreviver, ou estamos fora do jogo.
Esse é geralmente o destino de todas as formas vivas: crescer. Aprendemos isso tão cedo quanto desenvolvemos a habilidade de entender o que as pessoas dizem. Coisa de gente grande. Coma seus vegetais para crescer forte. O que você vai ser quando crescer? É inevitável, todos nós nos tornamos adultos.
Mas quando exatamente isso acontece? E tem a ver com o quê? Idade, experiências, metros de altura... O que determina que devemos deixar a imprudência de lado e assumir a responsabilidade de adultos? O que nos força a abandonar certas escolhas e fazer outras mais sérias? Crescer significa mais do que adquirir pelos no rosto e uma carteira de habilitação. É mais do que deixar de assistir desenhos animados para analisar documentários, abandonar os livros de fantasia e colocar biografias em sua cabeceira. Crescer não é só a respeito dos ganhos.
Crescer é perda. Mas, além disso, crescer significa aceitar essas perdas, embora não concorde com elas. Essa é a linha que nos separa do que éramos quando tínhamos 12 anos de idade e do que nos tornamos: quando você começa a ter que engolir o choro e aceitar aquilo que não te agrada, significa que você cresceu. Porque é disso que o mundo adulto é feito: de coisas que não te agradam e que você tem de aceitar, de sapatos que machucam seus pés mas que são necessários em uma apresentação formal, de pessoas com as quais você não se identifica e no entanto tem que conviver todos os dias em seu ambiente de trabalho, de despesas que você não gostaria de ter, mas é obrigado a pagar se quiser ter uma vida no mínimo boa.
Por que algumas pessoas não crescem nunca é uma pergunta para Freud e a psicanálise. Mas, por que crescemos, nos machucamos, engolimos coisas maiores do que nossas gargantas, perdemos parte de nós mesmos e, ainda assim, continuamos inteiros? Bem, essa a ciência responde: ou nos adaptamos para sobreviver, ou estamos fora do jogo.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Areia
Todos os dias, quando você acorda, existem milhares de possibilidades te esperando do lado de fora do quarto. Você pode conhecer o amor da sua vida ou pode terminar um relacionamento. Você pode ser assaltado, ou ganhar na loteria. Não dá pra saber exatamente o que nos espera. A única certeza é que encontraremos mudanças.
Mudamos o tempo todo. Nossos sonhos, nossos caminhos. Nossas células são trocadas frequentemente. Transformamos oxigênio em gás carbônico milhares de vezes por dia. Mudamos e, mais do que isso, evoluímos. Abandonamos uma página de nossa história e avançamos para a próxima.
No entanto, é difícil lidar com as mudanças. É como ser arrancado da cama, debaixo dos cobertores quentes. Na maioria das vezes, elas vêm quando você não as espera. Como uma tempestade no meio de uma tarde ensolarada. Como uma notícia ruim às três da manhã. Como uma decepção depois de oito meses de tentativas árduas. Mudanças aparecem, mexem com todas as suas estruturas, causam náuseas, são furacões que destroem e transformam o mundo como você o conhecia em uma paisagem cheia de escombros e, acima de tudo, nova.
Quando as coisas mudam, quando o mundo parece ter virado de cabeça para baixo, quando a atmosfera se torna insuficiente e o chão desaparece, você tem duas escolhas: vasculhar o entulho à procura de coisas que se destruíram e nunca mais serão as mesmas, que nunca mais serão inteiras, que nunca mais terão o mesmo efeito... ou se levantar do local do desastre, tirar a poeira e as lágrimas das suas roupas, e andar para frente, até encontrar um solo firme e fresco, para construir coisas novas e aceitar que a mudança é, no final das contas, um lar.
Mudamos o tempo todo. Nossos sonhos, nossos caminhos. Nossas células são trocadas frequentemente. Transformamos oxigênio em gás carbônico milhares de vezes por dia. Mudamos e, mais do que isso, evoluímos. Abandonamos uma página de nossa história e avançamos para a próxima.
No entanto, é difícil lidar com as mudanças. É como ser arrancado da cama, debaixo dos cobertores quentes. Na maioria das vezes, elas vêm quando você não as espera. Como uma tempestade no meio de uma tarde ensolarada. Como uma notícia ruim às três da manhã. Como uma decepção depois de oito meses de tentativas árduas. Mudanças aparecem, mexem com todas as suas estruturas, causam náuseas, são furacões que destroem e transformam o mundo como você o conhecia em uma paisagem cheia de escombros e, acima de tudo, nova.
Quando as coisas mudam, quando o mundo parece ter virado de cabeça para baixo, quando a atmosfera se torna insuficiente e o chão desaparece, você tem duas escolhas: vasculhar o entulho à procura de coisas que se destruíram e nunca mais serão as mesmas, que nunca mais serão inteiras, que nunca mais terão o mesmo efeito... ou se levantar do local do desastre, tirar a poeira e as lágrimas das suas roupas, e andar para frente, até encontrar um solo firme e fresco, para construir coisas novas e aceitar que a mudança é, no final das contas, um lar.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Irresponsáveis
É uma frase tão famosa que se tornou clichê. É um trecho de um dos livros mais adoráveis que eu já tive a oportunidade de ler (nem preciso citar qual é). E foi uma das frases que eu mais admirava até dias atrás, quando li um texto da Martha Medeiros que fala sobre essa citação.
Soa bonito, mesmo. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Mas soa bonito quando é usado como autodefesa, quando você diz isso ou escreve nos seus status de redes sociais direcionado a alguém. "Seu irresponsável, me cativastes e deste no pé, tu te tornas responsável por aquilo que cativas, não sabes disso não?" E aí a gente sai por aí, os donos da dor.
Só que nem sempre é assim. Quando os responsáveis por algum cativado somos nós, a gente vê que não é tão poético e agradável. Nós cometemos erros, na maior parte do tempo. Dissemos coisas que nunca queríamos ter dito. Temos atitudes inadequadas e involuntárias, até. Somos irresponsáveis, mesmo sem querer. Fazemos pessoas que nos amam, e que amamos também, chorar.
Infelizmente não é algo que está em nossas mãos mudar. Enquanto seres humanos, estamos todos sujeitos a cometer erros, a pisar na bola. E isso não faz de nós monstros, isso não significa que não nos importamos com os sentimentos das pessoas, não quer dizer que não queríamos muito poder evitar essas feridas que a gente cria nos outros. Significa apenas que não dá pra ser sempre correto e que ninguém merece ser excomungado pelo próprio Saint-Exupéry o tempo todo.
Fica aqui o meu pedido de desculpas a mim mesmo e a todos aqueles que já chamei, mesmo que mentalmente, de irresponsáveis.
Soa bonito, mesmo. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Mas soa bonito quando é usado como autodefesa, quando você diz isso ou escreve nos seus status de redes sociais direcionado a alguém. "Seu irresponsável, me cativastes e deste no pé, tu te tornas responsável por aquilo que cativas, não sabes disso não?" E aí a gente sai por aí, os donos da dor.
Só que nem sempre é assim. Quando os responsáveis por algum cativado somos nós, a gente vê que não é tão poético e agradável. Nós cometemos erros, na maior parte do tempo. Dissemos coisas que nunca queríamos ter dito. Temos atitudes inadequadas e involuntárias, até. Somos irresponsáveis, mesmo sem querer. Fazemos pessoas que nos amam, e que amamos também, chorar.
Infelizmente não é algo que está em nossas mãos mudar. Enquanto seres humanos, estamos todos sujeitos a cometer erros, a pisar na bola. E isso não faz de nós monstros, isso não significa que não nos importamos com os sentimentos das pessoas, não quer dizer que não queríamos muito poder evitar essas feridas que a gente cria nos outros. Significa apenas que não dá pra ser sempre correto e que ninguém merece ser excomungado pelo próprio Saint-Exupéry o tempo todo.
Fica aqui o meu pedido de desculpas a mim mesmo e a todos aqueles que já chamei, mesmo que mentalmente, de irresponsáveis.
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